A realização da COP 30, em novembro de 2025, na cidade de Belém do Pará, coloca a Amazônia
no centro das atenções globais. Pela primeira vez, líderes mundiais se reúnem dentro do coração
da maior floresta tropical do planeta para discutir caminhos de enfrentamento à crise climática. Mas,
para além da política e da diplomacia, esse evento abre espaço para uma reflexão mais profunda:
como a visão bíblico-reformada sobre a criação pode dialogar com os desafios ambientais da
atualidade?
Como teólogo e palestrante, afirmo inexoravelmente que fé reformada entende que a natureza não
é fruto do acaso, mas uma obra magnífica de Deus. O Salmo 24 declara: “Do Senhor é a terra e
tudo o que nela existe”. Logo, cada árvore, rio, animal e ser humano são expressões da bondade
divina. O universo inteiro é palco da glória de Deus e anuncia a sua grandeza, desta forma, o ser
humano foi chamado a ser mordomo dessa criação. O mandato cultural em Gênesis 1 não autoriza
a exploração desenfreada, mas impõe responsabilidade, cuidado e equilíbrio.
Entretanto, a queda distorceu essa relação. O pecado trouxe ganância, injustiça e degradação
ambiental. O apóstolo Paulo afirma que “a criação geme” aguardando a redenção (Romanos 8:22).
A crise climática que hoje enfrentamos é reflexo direto dessa desordem. Desmatamento, poluição,
aquecimento global e perda de biodiversidade são sinais de um domínio abusivo que ignora a
vontade do Criador.
Nesse contexto, para mim, a COP 30 é mais do que uma reunião política: é uma oportunidade
histórica de restaurar o compromisso humano com a vida. Entre os temas centrais, destacam-se o
financiamento para conservação das florestas tropicais, a precificação do carbono e o
fortalecimento das vozes de povos tradicionais da Amazônia. Curiosamente, tudo isso dialoga com
princípios bíblicos de justiça, solidariedade e mordomia.
A tradição reformada sempre ressaltou que Cristo não veio apenas para salvar almas, mas para
redimir toda a criação. O Reino de Deus abrange relações, culturas, economias e ecossistemas.
Apoiar iniciativas que preservem a Amazônia e valorizem os povos que nela habitam é, portanto,
um ato de fé e de obediência ao Senhor. Defender justiça climática é defender a vida que Deus
soprou sobre o mundo.
Mas a visão cristã também exige vigilância. Não basta celebrar promessas ecológicas,o cristão
reformado é chamado a discernir, denunciar incoerências e propor caminhos mais justos. Mordomia
não é marketing verde, mas compromisso real com a vida.
A espiritualidade bíblica nos lembra que cuidar da criação é parte da adoração. Plantar uma árvore,
apoiar políticas públicas responsáveis, valorizar a bioeconomia, ouvir os povos indígenas — tudo
isso é expressão prática de fé. A oração “venha o Teu Reino” inclui também um clamor por rios
limpos, florestas preservadas e cidades sustentáveis.
A COP 30, que será realizada no coração da Amazônia, pode marcar um divisor de águas na luta
global contra a crise climática. Para os cristãos reformados, é um convite à ação. Um chamado
para unir fé e prática, espiritualidade e política, evangelho e ecologia. Um tempo para mostrar que
a redenção em Cristo não se limita ao templo, mas se estende ao planeta inteiro.
Seja na floresta, nas cidades ou nas igrejas, a responsabilidade é clara: sermos mordomos fiéis
da criação de Deus, guardiões da vida e testemunhas da esperança de um mundo
restaurado.